Cristiana Tupi

Cristiana Tupi, 43 anos, estudante de Arquitetura e Urbanismo da Belas Artes
"Descobri que nunca é tarde para estudar."

Eu sempre quis fazer medicina. Minha mãe, italiana que veio pequena para o Brasil, durante a Segunda Guerra, era enfermeira instrumentista. Via aqueles médicos saindo e entrando do hospital e achava bonito. Ela faleceu quando eu tinha 9 anos. Morreu de infarto. Fui para um colégio interno, fiquei lá uns três anos até ir morar com a minha tia. 
Depois, voltei a viver com o meu pai. Ele era inglês, veio para cá criança e conheceu a minha mãe quando tinha uma barraca de fruta na feira do Bexiga. Ela era cliente dele. Sou a caçula de três irmãos. 
Quando tinha 17, 18 anos, resolvi morar sozinha. Comecei a trabalhar no Bradesco como escriturária e conheci um rapaz. Em menos de seis meses, ficamos noivos. Mas, faltando 15 dias para o casamento, ele desistiu. Foi um baque muito grande. Desde aquele dia, não fui mais a mesma mulher. Fiquei áspera, entrei em depressão, me afundei em remédios.
Parei de trabalhar, não quis saber de mais nada. Meu pai me levou ao psicólogo, ao psiquiatra. Até que um dia meu irmão reencontrou um amigo que estava sendo transferido para os Estados Unidos e precisava de alguém de confiança para tomar conta do bebê de 3 meses. Meu irmão perguntou se eu não tinha vontade de ir, que era a melhor maneira de esquecer a minha vida aqui.
Fiquei três anos nos Estados Unidos, morei na Carolina do Norte, estudei inglês. Foi uma experiência muito boa. Quando terminou o contrato e eu voltei, comprei minha casa, conheci meu marido e engravidei da Caroline, que hoje tem 21 anos. Nessa época, a gente vivia trocando de casa, mas administramos mal o dinheiro e fomos parar na favela. Eu trabalhava como empregada doméstica.
Fomos morar no Jardim Varginha, enfrentamos dificuldades, meu marido era alcoólatra. Sou casada com ele até hoje. Quando nasceu meu segundo filho, ele criou juízo. Depois, moramos no Grajaú até a gente vir para o Capão Redondo. Todo mundo dizia que eu era louca de vir para çá, que eu ia morrer. A área era dada como Triângulo da Morte, por conta dos grupos de extermínio. Isso foi nos anos 90. Hoje, graças a Deus está "em paz". Mas o período negro passou.
Resolvi voltar a estudar em 2008 e o sonho de fazer medicina voltou. Consegui uma bolsa no cursinho Anglo e prestei a Fuvest por três anos. Em 2010, consegui gabaritar a primeira fase. Mas na segunda fase, não deu. Fiquei tão frustrada...
Em 2012, a minha filha, que tinha estudado na Casa do Zezinho dos 12 aos 14 anos, falou que a Casa oferecia aulas preparatórias para o vestibular. Comecei a estudar lá e um dia soube pelo professor Pedro da faculdade Belas Artes. Me inscrevi no programa de bolsas e escolhi prestar Arquitetura e Urbanismo. Passei. Nem sabia direito o que era arquitetura, mas fui onde meu coração mandou. A Tia Dag gostou de eu ter escolhido o caminho das artes, da luz. Meu professor fala que o poder do arquiteto é mostrar um novo mundo para as pessoas, novas estruturas, é levar alegria. Esse foi o caminho que a Casa do Zezinho me abriu.
Jamais vou esquecer da CZ, porque foi uma experiência de vida maravilhosa. Fui muito bem recebida, ninguém perguntou de onde eu vinha, quem eu era. Por ter 43 anos, tinha receio que as crianças tirassem sarro de mim. Mas descobri que nunca é tarde. 
A mesma coisa aconteceu na faculdade. Achei que aquela molecada ia me detonar. Mas fui bem acolhida, os meninos me respeitam, o meu apelido é Tia Cris. Eles me elegeram monitora da sala, me tornei uma referência. Quando não sei alguma coisa eles se juntam para me ajudar.
Quero ter a faculdade como experiência de vida e depois vou tentar ser professora, dar aula de história da arte ou de história da arquitetura. O meu marido me apoia. Ele disse que já bagunçou tanto na vida que agora está na hora de me ajudar. Eu estudo e cuido do meu filho. O problema de onde moro são os vizinhos. Eles não sabem ouvir música baixa, é aquela baderna. E esse negócio de fazer projeto com o Lepo Lepo no ouvido... é difícil de concentrar (risos).