Fabiana Nilo Barreto

Fabiana Nilo Barreto, 30 anos, mediadora da secretaria e recepcionista da Casa do Zezinho
"A Tia Dag ensina a olhar não só para o próprio umbigo."

Eu ouvia falar da Casa do Zezinho pelo meu professor de capoeira, o Curisco, e sempre tive curiosidade. Até o dia em que ele me trouxe para conhecer o trabalho. Cheguei a jogar com a Tia Dag, que é mestre. Aí fiquei tentando entrar. No começo, a Casa não tinha estrutura para tantas crianças, demorava para arrumar uma vaga. Um dia consegui um lugar, por meio da Corina. Eu já tinha ouvido sobre as atividades e me interessei por informática. Como a minha mãe ganhava pouco, e tinha seis filhos, era difícil para ela bancar algum curso.
Quando cheguei, tinha 14 anos. Era uma menina tímida, não conversava. Eu treinei handebol, fui me interessando por esportes e até hoje eu gosto. Minha mãe que não achava bom que eu praticasse. Ela falava: "Você vai ficar andando por aí, acompanhando os professores?!", porque quando tinha apresentação de capoeira eu ia junto e ela ficava preocupada. Na Casa do Zezinho era diferente: os pais precisavam assinar uma autorização para os passeios. Então minha mãe passou a confiar, tanto que consegui trazer os meus irmãos para fazerem curso aqui. A minha irmã Tathiana fez panificação e hoje trabalha em cozinha. 
Minha mãe trabalhava como ajudante de cozinha. Sempre foi muito brava, paraibana! Até hoje ela fala que se a gente fizer qualquer coisa errada ela está velha, mas bate na gente! O meu pai foi embora quando eu tinha 2 anos e a minha irmã ainda estava na barriga da minha mãe. Aí ele ficou um tempo na Bahia, onde nasceu, e o reencontrei quando tinha 13 anos, mas não guardo mágoas.
Nunca experimentei droga, porque minha mãe dava muito conselho, falava: "Você sabe que a vida já é difícil, se for procurar mais alguma coisa vai ser mais difícil ainda". Ela sempre deu o exemplo e repetia: "Não faça isso, sou mãe solteira, quero mostrar que crio meus filhos bem". Faz um tempinho que ela teve um AVC e não trabalha mais. Sou eu e meus irmãos quem a ajudamos. 
Eu acho que o preconceito com o fato de a minha mãe ser mãe solteira me fez ser mais fechada. Tinha apresentação na escola, por exemplo, eu não conseguia falar, tinha medo de as pessoas zombarem de mim. Mas quando entrei na CZ, um novo olhar se abriu, fui vendo que podia me expressar, sem medo de julgamentos. Mas o que mudou nesses anos de Casa foi o sentido de amizade, de acolhimento. Porque eu era mais desconfiada. Achava que o ser humano não prestava, só via e ouvia coisas ruins à minha volta. Os vizinhos diziam que a gente morava num cortiço, porque nossa casa ficava num quintal junto com outras casas, que eu e meus irmãos íamos ser ladrões. Aqui fui aprendendo que existem pessoas com um lado ruim, mas que podem vir a ter um lado bom.
Minha mãe casou de novo e teve mais três filhos. Um deles, o Fábio, morreu, com 23 anos. Ele era trabalhador, de dia era metalúrgico e de noite entregava pizza. Nunca fez nada de errado porque minha mãe sempre foi rígida. O que a gente sabe é que ele foi numa festa com um amigo, e parece que esse rapaz ficou interessado em uma mulher casada. Quando eles estavam voltando, de moto, passou um carro e deram um tiro que acertou o meu irmão. Ele morreu na hora. O Fábio sempre foi amigo de todo mundo. E era o pilar da casa. Tive um apoio enorme do pessoal da Casa do Zezinho, foram eles que resolveram tudo, descobriram que meu irmão tinha seguro de vida. Então é por isso que toda vez que estou passando por alguma dificuldade, corro pra eles, converso. Pra mim, eles são tudo. 
Fiz o curso de informática e fui trabalhar como operadora de telemarketing numa empresa indicada pela CZ. Depois de quatro anos, fui demitida porque fiquei afastada meses por causa de uma inflamação no ombro e a minha irmã, que trabalhava na Casa, falou: "Tem uma vaga aqui!". Na hora liguei pra Corina e falei: "Quero marcar uma entrevista". A vaga era de auxiliar da Ana Lúcia, uma das educadoras. Comecei no dia seguinte. Nessa época estava com 24 anos. Gostava muito do trabalho, a Ana Lúcia é uma mãezona. Aí pediram para eu cobrir as férias na secretaria e acabei ficando. O meu turno termina às 22h30, sou eu quem tranco a Casa... Só a Corina que fica depois de mim.
Hoje faço faculdade de administração de empresas, já quase terminando. Desde cedo, eu via as pessoas que tinham condições estudando e pensava: "Como é que vou estudar se não tenho dinheiro?". Agora, penso diferente: tem como ir atrás. A Casa do Zezinho me mostrou que dá pra estudar, eles me incentivaram bastante.
A Tia Dag, pra mim, é maravilhosa. Ela dá força para os Zezinhos correrem atrás das coisas. Ela ensina a olhar não só para o nosso próprio umbigo, mas para os outros. Tanto que conto a minha história para os alunos que vêm fazer matrícula, mostro que eles podem chegar a algum lugar, mesmo que os pais não tenham condições.
Hoje moro com o meu noivo, que trouxe para a Casa do Zezinho há um ano. Eu vivia falando: "Tem um curso...". Aí ele se interessou, e quis fazer gastronomia. Estamos construindo uma casa, quero continuar estudando, fazer uma pós-graduação, ter uma família. Foi aqui que aprendi a ter força, a ir atrás, procurar. Passei por fases difíceis, mas estou de pé, viva, não estou chorando pelos cantos, porque tenho a Casa do Zezinho, senão... Não sei o que seria de mim.