Gabriel Silva Lima

Gabriel Silva Lima, 26 anos, marketing
"Se não tivermos alguém para nos direcionar, qual é o caminho a ser seguido?"

Nunca esqueço das palavras da Ana Lúcia no dia da matrícula: "A nossa intenção é agregar o máximo de culturas diferentes aqui". Ela dizia isso para a minha mãe, que tinha receio que eu entrasse na Casa do Zezinho porque não éramos tão carentes quanto as outras crianças. Vim com 9,10 anos, trazido pela minha madrinha, que dava aula de costura. Por mais que a minha família não passasse necessidade, não tínhamos luxos. Foi onde tive meu primeiro contato com computador. Demorei para aprender, quando acabava a aula eu deixava a máquina ligada porque não sabia desligar. Aprendi a tocar saxofone no Projeto Guri, tive aula de mosaico com a Ana D'Água, todo meu tratamento odontológico foi da Casa, ficava a tarde inteira aqui. Não parava de correr pelas escadas, a Tia Dag vivia dando bronca porque a gente passava assobiando e atrapalhava as aulas. 
Em todos os aniversários dela era servido acarajé e um bolo quilométrico para as crianças. O Marcelo Tas, grande amigo da Tia Dag, estava sempre pela Casa do Zezinho, lembro que isso me motivava, porque ele era o cara que trabalhava no Castelo Rá-Tim-Bum, então sabia que a CZ me traria coisas boas e me abriria portas.
A única lembrança ruim foi ter sofrido preconceito por parte de um aluno da minha sala. O nome dele era Carivaldo, e ele me hostilizava da pior maneira possível, me chamava de gay. Eu ficava totalmente constrangido, não sabia como contornar a situação. Comecei a ficar desmotivado de vir pra Casa, porque ia encontrar com ele. Um dia, não aguentei e contei pra Ana Lúcia. Ela me tratava como um filho. Levou o assunto para a Tia Dag; mas até então eu não sabia. E a Tia Dag me chamou pra conversar. Fiquei em pânico: "O que foi que eu aprontei?", pensava, porque ela é totalmente correta, mas se visse alguma coisa errada, te esculachava. Ela perguntou como me sentia. Eu dizia: "Me sinto envergonhado". E ela: "Você se sente envergonhado pelo que as pessoas estão vendo ou pelo que você está sentindo?" Abri a minha vida pra ela, foi uma grande oportunidade de saber quem eu era de verdade, de saber que era gay. Estava me descobrindo, mas me retraía por causa das ofensas. Ela começou a me orientar. Dizia: "Não vai ser mais um. Se você acha que é gay, que seja o melhor". Se eu tinha o aval da Tia Dag, tinha o aval de todos.
Eu estudava na Sala Oriente. Um dia ela entrou no meio da aula e falou para todo mundo parar o que estava fazendo porque ela ia apresentar um novo aluno, o Gabriel. Que era um cara diferente das outras crianças, mas diferente apenas na essência; a alma era igual a de todos. Ela disse que eu tinha muito a agregar, que quem quisesse conhecer mais da vida que se encostasse no Gabriel, que ele era um cara fantástico. Ela me colocou lá em cima. Virei o popular da Casa do Zezinho, ganhei autoconfiança. O Carivaldo nunca mais mexeu comigo. Pelo contrário, tentou ser mais sociável. Foi o único caso de preconceito que passei aqui. Se não tivesse tido essa oportunidade talvez não teria me mostrado de verdade. Hoje sou extremamente bem resolvido com isso e respeitado.
Depois que me assumi na CZ, me assumi em casa. Foi bem conturbado, meu pai parou de falar comigo, eu tinha 15 anos. Minha mãe ficou chocada, mas ficou do meu lado. Com o tempo e com o diálogo, nos entendemos. Hoje tenho uma relação ímpar com os meus pais. Entendo que tenha sido um choque, ninguém quer ter um filho hostilizado pela sociedade.
Minha mãe tinha sido demitida da Coca-Cola nessa época, então entrou em depressão, meus pais chegaram a separar, eu estava me assumindo, foi um baque. Mas acho que a Casa do Zezinho canalizava essa energia negativa para os estudos e para as atividades. Se não tivermos alguém para nos direcionar, qual é o caminho a ser seguido?
Saí da Casa com 16 anos porque comecei a trabalhar. Fui estoquista numa loja de sapatos, auxiliar administrativo, caixa, vendedor, depois fui para uma empresa de telemarketing. Entrei como operador e virei supervisor aos 21 anos, cheguei a ter 70 funcionários. Foi difícil, tive que criar maturidade, tomei muita pedrada. 
Estudei psicologia na UNIP e publicidade e propaganda na FMU. Atualmente trabalho no marketing do Shopping Metrô Tucuruvi, onde me encontrei. Meu negócio é evento, comunicação. Esse desejo pela carreira de comunicação já nasceu comigo, sempre gostei de estar à frente, mas sei que isso foi externado na Casa do Zezinho, onde pude mostrar quem era de verdade.