Francisco Cardoso do Carmo

Francisco Cardoso do Carmo, o Gigio, 34 anos, mestre de capoeira e educador
"Na Casa do Zezinho, a gente trabalha com o olhar."

A minha história com a Casa do Zezinho começa bem antes de existir a CZ. A minha mãe trabalhou na casa da Tia Dag um bom tempo. Como ela costuma dizer, me conheceu quando eu estava na barriga. Passou um tempo, ela abriu a Casa do Zezinho e comecei a vir. Fui um dos doze primeiros.
A casa dela já era uma mini Casa do Zezinho, já morava uma galera. Eu não ficava direto, mas estava sempre por aqui. Quando completei 14 anos, vim morar na CZ porque o meu tio foi assassinado, então não podia mais morar na Vila das Belezas. Eu vi a cena e fiquei traumatizado. A Tia Dag me acolheu e foi uma segunda mãe para mim. Ela, a Corina, a Ângela... Era como uma casa mesmo, bem acolhedor. Fiquei aqui até os 18 anos. 
A Casa ainda não era estruturada como é hoje, mas eu ficava brincando de capoeira no fundo do quintal, junto com o Elialdo e o Jack. E na rua também, ficava saltando, pulando. Um professor me viu jogando e falou: "Vou te dar uma bolsa". Eu achava que "bolsa" era bolsa de mulher. Para que ia querer uma bolsa? Daí ele explicou que eu poderia treinar sem ter que pagar. Comecei e me encantei, ia de domingo a domingo. Foi a capoeira que me tirou das ruas, me fez escolher o caminho certo, porque onde eu morava tinham vários caminhos errados. Tanto que, de 30 alunos, sobraram dois. O resto morreu ou entrou nas drogas. 
Eu sempre trabalhei muito. Pegava carrinho de ferro velho, vendia geladinho, salgadinho na feira, fazia qualquer coisa, menos coisa errada. Aí entrei na capoeira e tive a primeira oportunidade de dar aula. Ganhava R$ 200, não dava pra fazer nada, mas pra mim era um dinheiro suado. Fui aprendendo, estudando, e hoje não vivo mal. Tenho meu carro, comprei minha casa, casei, tudo o que tenho consegui com o dinheiro da capoeira. A minha família não acreditava muito, falava que era coisa de malandro, que não dava futuro. Ainda tem isso. Tanto é que, em 23 anos, ninguém da minha família, nem a minha mãe, foi em um evento meu.
Mas a Tia Dag apoiava, dava corda: "Você gosta, vai. Se quiser ser um gari, você vai ser um gari, mas o melhor", e eu sempre ouvia. Ela é capoeirista de Angola, é uma historiadora da capoeira, sabe muita coisa.
Trabalhei em projetos, dava aulas em escolas da prefeitura, tinha vários contatos, cheguei a formar um grupo que não deu certo, mas continuei focando e vindo na CZ.  A Tia Dag ficou sabendo que eu estava dando aula quando um dos professores daqui, o Elialdo, que foi um dos primeiros Zezinhos, sofreu um acidente feio de moto, perdeu a visão e não pôde mais dar aula. Aí a Tia Dag me chamou e estou até hoje.
Comecei com duas aulas na semana e nos outros dias dava aulas em vários lugares, era uma correria. Até que a Tia Dag me chamou, perguntou quanto eu ganhava e disse que dobrava meu salário para eu poder ficar só aqui. Mas ela disse também que se fosse só para dar aula de capoeira, não serviria. Eu teria que ser educador. Por isso que tem dia que a aula é dentro da sala, tem dia que é na quadra, outro dia é na rua. Eu gosto do que faço e faço a molecada amar o que faz. Tem menino que fala: "Olha, professor, não gosto de capoeira, mas você é legal, eu gosto da aula". Você tem que fazer a pessoa gostar. Militarismo não funciona.
Agora tem aula de capoeira para todo mundo. A maioria dos alunos são meninas. Os meninos ficam no chinelo. Aos sábados, as aulas são para a comunidade, quem já foi Zezinho pode vir. Aí a aula é mais puxada. Durante a semana é mais recreativa. 
Quando estou com meus alunos, tento passar os valores da capoeira. Entrar na roda e dar um "salve", que é o bom dia. Valorizar a presença do outro. Transmitir o acolhimento pelo olhar, pelo aperto de mão. Tento passar a história, que é muito rica. A capoeira está comigo na hora que acordo, que ando na rua, quando durmo. A todo momento estou praticando capoeira. É uma coisa de pele.
O que tem de mais especial na Casa do Zezinho é que a gente trabalha com o olhar. Quando o aluno chega, eu abraço, brinco. Nunca vi o menino e faço de conta que é meu amigo: "Nossa, quanto tempo! Que saudades!", e eles se sente importante. É o olhar no olho, sentar, conversar, saber da história do aluno. Depois do olhar, você aprende a entender a pessoa. É o que me faz gostar e continuar aqui.