Isabella Lima Xavier

Isabella Lima Xavier, 20 anos, educadora do Caminhos da Transformação
"O meu maior sonho é nunca parar de sonhar."

Nasci em Pernambuco, na cidade de Itambé, e quando tinha 5 anos, vim para São Paulo com os meus pais e dois irmãos. Foram três, quatro dias de ônibus. A gente veio morar no Jardim Lídia, mais conhecido como Campo do Caju. Meu pai veio trabalhar como pedreiro, mas um ano depois a empresa faliu e ficou desempregado. Ele era muito machista e não deixava a minha mãe trabalhar. Quando ela foi trabalhar escondido numa loja de R$ 1,99 e meu pai descobriu, tirou ela de lá pelos cabelos. Ele dizia que a gente podia passar fome, mas que minha mãe não ia trabalhar. Chegamos a ser despejados de casa porque não tinha como pagar o aluguel, fomos morar com um tio.
Quando eu estava com 8 anos, meu pai conseguiu um emprego de ajudante de pedreiro e depois se tornou mestre de obras. Mas ele viajava e passava 20 dias por mês fora. Deixava a minha mãe com R$ 50. Ela tinha que se virar e começou a fazer unha. Ganhava o dinheiro dela, mas todo fim de semana chamava os amigos para fazer churrasco e beber em casa. Eram litros e litros de cachaça - Pitú, não era nem 51. Acho que minha mãe fazia isso pra mostrar uma realidade que não viveu. Ela contava que tinha passado fome na infância. Nunca chegamos a passar fome. Mas foi quase. Quando não tinha o que comer, ela arrumava um jeito e conseguia arroz com farinha e banana.
Um dia minha mãe trouxe eu e meus irmãos na Casa do Zezinho. Lembro que estava pra fazer 10 anos. Pra gente que morava "lá em baixo" era o auge. Tinha piscina, comida, pão, leite com Nescau. Mas não tinha vaga. No outro dia ela acordou a gente seis e meia da manhã e falou que a gente ia entrar na Casa de qualquer jeito. Deixou a gente na porta - uma criança de 9 anos, uma de 8 e uma de 5 - e foi embora. Ela fez isso três dias seguidos. Aí acolheram a gente.  
Nessa época, meu pai estava trabalhando, mas ninguém via o dinheiro. Ele bebia muito. As contas atrasavam, cortavam a luz, a água. Aonde a minha mãe corria? Na Casa do Zezinho. "Vai lá que eles vão te dar dinheiro", ela falava. Se a gente não pedisse, apanhava. Ela tinha vergonha de falar que estava passando necessidade, então minha irmã dizia que estava doente pra pedir dinheiro pro padrinho [oTéio, filho da Tia Dag] dela comprar remédio. Só que ele comprava o remédio. Eu já era mais teimosa, enfrentava, falava que não ia fazer o que ela mandava. Apanhei muito. Meu pai chegava bêbado, brigando com a minha mãe, eu gritava para eles pararem, eles jogavam coisas. Então, o meu refúgio era a Casa do Zezinho. Ia de manhã, de lá ia pra escola, chegava da escola, jantava e ia dormir porque oito da noite iam começar as brigas. 
A casa tinha dois cômodos e todo mundo dormia no mesmo quarto. Um dia, com 12 anos, acordei com um ronco muito alto da minha mãe. Ela nunca tinha roncado. Deitei ao lado e ela estava muito gelada, não se mexia. Estava de bruços, atravessada na cama. Chamei e não respondeu. Acendi a luz e vi que os pés dela estavam brancos. Na hora que consegui virar o corpo dela, falei pro meu irmão: "Pepeu, minha mãe morreu!" Ela faleceu de enfarto fulminante do miocárdio. Fui chamar a vizinha e liguei pra polícia. Levaram a minha mãe na ambulância e fiquei esperando meu pai na casa da vizinha, ele tinha ido para Rondônia na madrugada. Até ali eu não tinha chorado, precisava ser forte para os meus irmãos. Se eu desabasse, como é que eles iam ficar? 
A Célia, da Casa do Zezinho, foi lá me ver, me abraçou e falou "Agora você é nossa". Aí eu chorei. Pensei: "Caramba, a Casa do Zezinho me viu de alguma maneira". A Tia Dag tinha mandado me buscar. Ela me abraçou e foi quando chorei, chorei, chorei. E me perguntou: "O que você quer da tia?". Eu falei que não sabia. As aulas iam começar e ela perguntou se eu queria uma mochila brilhante, bonita. Ela tentou de alguma maneira aliviar a minha dor. A Tia Dag entrou num lugar que eu nem conhecia, que era "a minha vontade". Mas falei pra ela que meu pai não ia mais deixar eu e meus irmãos virem pra Casa do Zezinho porque ele não gostava. A gente só estava lá porque a minha mãe queria. Ela perguntou se eu confiava nela, falei que sim, e ela: "Então deixa eu cuidar de você".
Meu pai entrou numa depressão profunda, perdeu o emprego e passou a usar drogas. Comecei a sentir muita raiva dele e ele me trancava em casa para eu não ir pra Casa do Zezinho. Ele achava que criança pobre não precisava fazer esporte, que tinha que correr atrás de pipa, ralar o joelho, apanhar da vida, que piscina de pobre era o tanque. Foram brigas e brigas. Passei meses trancada, eu ia só pra escola. Nessa mesma época, um dia acordei no meio da noite com ele tentando abusar de mim. Mas não conseguiu. Fiquei assustadíssima e passei a desafiá-lo cada dia mais. O dia que consegui quebrar a janela com uma concha de feijão, corri pra Casa do Zezinho. A Tia Bia foi em casa tentar conversar com o meu pai, mas ele não quis saber. 
Quando fiz 15 anos, ele quis que a gente mudasse para Diadema e eu só fui porque tinha feito a promessa de cuidar da minha irmã, para minha mãe. Um dia antes de ela morrer, me pediu isso. Depois fui descobrir que meu pai estava devendo dinheiro de droga para o traficante do Campo do Caju, que falou que se pegasse ele ou a família, matava. Então eu vinha pra Casa do Zezinho uma vez por mês. A Tia Dag mandava me buscar de carro e me dava dinheiro para eu voltar na semana seguinte. Mas meu pai pegava o dinheiro. Nessa época, o padrinho da minha irmã tinha tido uma filha e me chamou pra ajudar a cuidar dela. Aí comecei a trabalhar, eles sempre foram muito legais comigo. Me levavam pra shopping, restaurante, comecei a ver um lado que não conhecia. E eu queria aquilo pra mim, achava que dava felicidade. Queria fazer cursos, queria mudar a minha vida, eu precisava. Nisso estavam abrindo um projeto de meio ambiente [o Makaya] e queriam alguém para estagiar junto com a bióloga. Falei que era aquilo que eu queria. Ele me ajudou a alugar uma casa ao lado da CZ e consegui doação de móveis.
Enfrentei meu pai mais uma vez e saí de casa. Perdi o contato com ele e com meus irmãos. Comecei a dar aula junto com a educadora Gil [Ágatha Gil, bióloga], do projeto Makaya [Caminho da Transformação], e fui fazendo a minha vida. Um ano depois, meu pai ficou muito doente. Foram muitos anos de bebida. Fui ver ele. Quando cheguei, eu não sabia se chorava, se abraçava ele, se pedia perdão. Mas lembrava do que a Tia Dag falava: independente do que acontecesse eu tinha que ter humildade, ter coração. Levei ele pro hospital, fizeram uma cirurgia e descobriram que todos os órgãos estavam comprometidos, o quadro era irreversível. Ele ficou três meses na UTI em estado vegetativo. Fui a última a falar com ele. Disse: "Você não me pediu perdão por nada do que fez, mas eu te perdoo para você ficar em paz. Estou te esperando em casa, volta, pai". Fui pra Casa do Zezinho com a minha irmã, mas quando a gente chegou lá, meu pai tinha acabado de falecer. 
Eu tinha 17 anos. Falei: "E agora?" A Tia Dag disse que a Casa do Zezinho ia estar sempre perto. Hoje, depois de tudo isso, sou educadora do Caminhos da Transformação, programa que trabalha a educação ambiental, sou estudante de ciências biológicas, tenho 20 anos, consigo pagar as minhas contas, tenho o meu carro, meus irmãos moram comigo e estudam. Tudo o que sou devo à Casa do Zezinho, à Tia Dag, à Tia Bia, à Tia Corina, ao Téio, que sempre, de alguma maneira, apaziguaram a realidade e fizeram com que eu entrasse num sonho no qual tive liberdade de ter liberdade. A Casa me deu essa oportunidade. Se eu quiser, posso ser uma borboleta, posso ser uma psicóloga, uma fotógrafa, uma bióloga, uma assistente social, posso ser quem eu sou. Criei a minha identidade através da Casa do Zezinho. Ela sempre me deu opções, mostrou os caminhos, sem esquecer da realidade. No momento em que a minha mãe faleceu e que levei um tapa na cara do meu pai, se não fosse a opção de poder viver a realidade que eu construí... Ninguém nasceu pra viver uma realidade já construída, cada um vai construir a sua. O meu maior sonho era entrar numa faculdade, mostrar pra minha família que eu podia fazer diferente e eu consegui. Hoje, o meu maior sonho é nunca parar de sonhar. E nunca sair daqui.


Observações da repórter
Bellinha olha no olho enquanto conta sobre sua vida. Tem voz firme e discurso afiado, narra os fatos de uma só vez, quase não é preciso interrompê-la. Moça de sorriso fácil, é uma mulher em idade de menina. Não se envergonha da sua história, está sempre de cabeça erguida e as vezes em que a emoção toma conta das palavras, deixa o olho lacrimejar, mas segura o choro e segue em frente. O diminutivo de seu apelido combina com a doçura de seu olhar mas não representa a força que tem e que transparece em 90 minutos de conversa.