Jack Arruda Bezerra

Jack Arruda Bezerra, 31 anos, agente de turismo
"A Casa do Zezinho é compreensão, doação, humanismo, voluntariado."

Quando eu tinha 10 anos, soube pelos vizinhos que tinha uma escola no bairro que dava três refeições diárias. Isso foi o que me chamou atenção, porque o meu pai dificilmente conseguia colocar uma refeição na mesa. Lembro que ainda não se chamava Casa do Zezinho, mas Associação Glauco Rosa. Acho que a Tia Dag não imaginava que o projeto seria tão gigantesco como é hoje. O coração dela sempre foi muito amplo e ela viu a possibilidade de ajudar a comunidade já que todo mundo vivia o mesmo paradoxo: ou passava fome ou entrava para o tráfico. Era uma escolha a ser feita. E a Tia Dag não queria perder a gente para o tráfico. Eu estava propenso a ir para a criminalidade porque me via na obrigação de ajudar a minha família. Meu pai era alcoólatra, estava desempregado e a minha mãe era dona de casa. Não cheguei a fazer nada porque tive o suporte da Casa do Zezinho na hora certa. Me diziam que era um caminho sem volta, que eu teria uma vida de rei, mas depois o meu castelo iria desabar. Eles faziam a gente entender que, por mais que fosse um dinheiro fácil, era um dinheiro sujo e não valia a pena. Essa interferência foi crucial. A Tia Dag dizia: "Se você quer ter um futuro, trabalhe e não entre na vida do crime". 
As atividades estavam começando nessa época, ainda eram improvisadas. Mas tinha reforço escolar porque a escola pública do bairro era deficiente, tinha aula de cerâmica e pintura. A Tia Dag falava: "Filho, o caminho que vai te diferenciar é o estudo, o conhecimento. O estudo ninguém tira de você, independente do lugar onde mora". Nesse início da Casa, quando fazia sol, ela enchia cinco carros e levava a gente pro sítio dela em Itapecerica da Serra. A nossa vida era esperar o dia seguinte pra ver o que a Tia Dag ia nos proporcionar. A primeira bicicleta, a primeira ida ao zoológico foi a CZ que me deu. A Tia Dag sempre realizou os sonho dos Zezinhos de alguma forma. Tem uma história clássica. Um dos meninos tinha quebrado o dedo e uma voluntária da Casa levou ele no médico. Na volta, passaram no McDonald's e quando ele chegou aqui, contou pra todo mundo. No outro dia apareceram dez meninos com o dedo enfaixado. Teve um que quebrou de verdade, colocou o dedo na janela e prensou. Foi a primeira vez que a gente teve a oportunidade de comer no McDonald's, era um sonho. Cada alegria que tive ficou gravada no coração.
Meu pai nessa época tinha receio, ele falava: "A Tia Dag te dá um monte de coisa e o que você dá em troca? Ninguém é tão bom assim". Quando você cresce na favela, vê muita maldade e passa a desacreditar no ser humano. Você não imagina que alguém possa dar algo de mão beijada só esperando que você faça o bem. E era isso que ela pedia em troca: que a gente não passasse a perna em ninguém, não roubasse, não matasse. E eu também me fazia essa pergunta: "Como vou te pagar isso?". Ela falava: "Não estou te cobrando, estou te dando. Mas não vou te dar para sempre, quero que você cresça com as suas próprias pernas. Estou te ajudando porque acredito em você".
Quando fiz 14 anos, a Casa do Zezinho ofereceu um curso profissionalizante para que a gente se preparasse para o mercado de trabalho. Eu fui um dos primeiros Zezinhos a conseguir uma vaga, era numa agência de viagens chamada Tour House. Eu era office boy. Olhava aqueles bilhetes e pensava: "Será que um dia vou entrar num avião?". Era o meu sonho. E a Casa fez esse sonho se tornar realidade. Por causa de uma parceria com a Xerox do Brasil, eu e mais 12 jovens fomos para um intercâmbio de 21 dias em Berlim e em Hannover, na Alemanha. Depois disso viajei pelo Brasil e fui para os Estados Unidos. Esse ano vou levar a minha filha para passar o aniversário na Disney, vou realizar o sonho dela. Coisas que eram impensáveis, e que para alguns ainda são, começam a se tornar possíveis quando você trabalha. São pequenas realizações que transformam sua vida. Hoje faz seis anos que trabalho numa agência de viagens e minha carreira melhora cada dia mais.
Conseguir concluir o colegial já tinha sido um marco na minha família. Depois pude fazer um cursinho e passei no vestibular. Quando contei na Casa do Zezinho só faltaram me erguer, parecia que eu tinha ganhado a Copa do Mundo. Porque a vitória de qualquer Zezinho é uma vitória deles. Me formei em turismo pela Faculdade Adventista, através de uma bolsa de estudo. Eu tenho uma dívida de gratidão impagável com a Casa do Zezinho. Quantas e quantas vezes a Tia Dag me chamou no fim do dia e falou: "Leva essa cesta básica para a sua família ter o que comer" [Jack se emociona e chora]. Porque o meu pai não ficava um dia sem beber e a minha mãe não tinha ninguém da família aqui, era sozinha, só eles vieram de Natal (RN). Hoje, faz 15 anos que ele parou de beber, mas no ano passado teve um derrame e ficou com uma paralisia no braço. Meu sonho é que ele viva muitos anos. 
Então, a Casa do Zezinho foi um divisor de águas na minha vida. É realmente um lugar onde se pode crescer, se tornar um ser humano, um profissional. Ter tido pessoas com quem pude desabafar, olhar no olho, fez toda a diferença. Até hoje a CZ é um norte para as pessoas da favela poderem se tornar cidadãs, ter civilidade, exercer seus direitos e buscar o que almejam. A Casa do Zezinho é compreensão, doação, humanismo, voluntariado. Programar robôs e criar um método que não vai fazer pensar é fácil. Aqui não, você se questiona o tempo inteiro.