José Heldo dos Santos

José Heldo dos Santos, o Giraia, 31 anos, sempre Zezinho
"A Tia Dag é uma guerreira."

Eu e meus dois irmãos andávamos em um grupo de sete meninos pelo bairro. Foi um desses colegas que me deu o apelido de Giraia. Eu gostava de brincar com uma espada de madeira que eu tinha feito, saía correndo com ela atrás dos marimbondos. A gente pedia comida nas casas, e uma vez viemos pedir aqui. Ainda era uma casa bem pequena, cheio de mato em volta. 
Eu tinha 10 anos. Conhecemos a Tia Dag, a Tia Ângela, lembro que a gente almoçava sentado no chão. Elas davam conselho para a gente estudar. Íamos para o sítio da Tia Dag, elas levavam a gente para o Playcenter, Hopi Hari. Tinha um forno de cerâmica e a gente fazia vaso porque queria vender, aprendemos também a fazer papel para desenhar cartões de Natal. Assim dava para ajudar um pouquinho em casa.
Meus pais vieram de Pernambuco, eu e meus irmãos ficamos dois anos com a minha avó antes de virmos para São Paulo. A gente veio morar numa casa de tábua, no Campo de Fora, onde ainda moro. Aos poucos, meu pai foi construindo uma de tijolo. Ele era camelô e mágico, fazia mágica na rua. Saía para trabalhar preocupado com os filhos, porque tinha um bocado de traficante que passava armado na porta de casa. Na época, matavam muita gente. Minha mãe nunca trabalhou, mas ficava cuidando dos meus irmãos pequenos, eu sou o mais velho. Então meus pais não tinham tempo de conversar comigo. Por isso, a Tia Dag é como uma mãe para mim. Sempre acreditei nela. "Tem duas coisas que você precisa fazer", ela dizia: "Estudar e trabalhar. Se você entrar para o crime, ou vai preso ou morre". Nunca fiz coisa errada por causa dela.
Lembro que ela ficava doida, nervosa, porque a gente ia nadar no lago de Itapecerica, e lá morria muita gente afogada. Ela acabou construindo a piscina por causa da gente. Eu bagunçava muito, era danado, subia em árvore, dei muita dor de cabeça. Na escola também era assim, cabulava aula para jogar bola. Hoje me arrependo. Foi a Tia Corina que me ensinou a ler e a escrever. 
A Tia Dag sempre falou: "Quero ver mais de cem crianças aqui". Eu olhava para aquela casinha e pensava: "Onde ela vai enfiar esses cem?" Quando começou a chegar mais crianças, fiquei com ciúme. Ela ia abraçar os outros meninos e eu dizia: "Será que ela parou de gostar da gente?". Porque fomos os sete primeiros. Mas ela sempre deu carinho para todo mundo. O que ela faz com essas crianças não é qualquer um que faz. A Tia Dag é uma guerreira. Tenho que agradecer a ela e a todo mundo: a Tia Ângela, que fazia a nossa comida, ao Gilson, todo mundo deu uma força.
Carreguei muito tijolo para ajudar a construir a Casa do Zezinho. Fiquei na Casa até os 16 anos e saí para trabalhar como jardineiro num condomínio na Serra da Cantareira. Fiquei cinco anos e depois passei oito anos numa desentupidora. Quando fiquei desempregado, quase dois anos atrás, consegui uma vaga de auxiliar de limpeza aqui na Casa do Zezinho. Agora, devo voltar a morar em Pernambuco, meus pais estão um pouco doentes. Vou sentir falta das crianças, da Tia Dag. Aqui é muito alegre, não tem como você ficar triste não.

Observação
Em abril de 2014 José Heldo voltou para Pernambuco, para morar lá.