Lourival Fernando Ferreira dos Santos

Lourival Fernando Ferreira dos Santos, 23 anos, oficina de Mosaico
"É uma vitória ver uma criança fazendo o mosaico."

Eu vim pra Casa do Zezinho porque sempre fui apaixonado por esporte. Sabia que tinha quadra, futebol, capoeira, então me interessei. Mas, como as vagas eram limitadas, tive a ideia de dormir na porta para esperar. Trouxe até um colchão, mas a Tia Bia apareceu dizendo que não precisava, que era só vir de manhã cedinho para conversar.
Entrei com 6 anos e passei por todas as cores do Arco Íris. Eu falo que a Casa do Zezinho me deu tudo: infância e adolescência. Eu nunca tive infância, porque desde pequeno sempre precisei batalhar muito. Tinha que trabalhar na feira e no Ceasa com meu irmão, ajudando os feirantes para conseguir um dinheiro.
Eu queria mesmo era ser professor de percussão, música sempre foi fundamental pra mim. Quando era criança, voltava da escola e começava a batucar nas panelas de casa. Porque não tínhamos luz, a gente vivia no escuro. Minha mãe ficava doida com o barulho que eu fazia. Mas na rua não tinha lazer, só besteira, então era melhor ficar batendo panela. Ela era faxineira, faleceu de bronquite faz três anos. Eu já tinha perdido um irmão que era muito apegado, o outro saiu de casa porque fazia muita coisa errada e hoje moro com a minha irmã, que tem 15 anos. Cuido dela porque ela tem problema com drogas, a CZ me ajuda muito com isso.
A Tia Dag é uma mãezona pra mim. Ela conversa comigo, me dá educação, broncas, quando vê que estou de cabeça baixa, ela fala: "Vai deixar a peteca cair agora? Levanta a cabeça, quantas barreiras você já não passou?".
Há quatro anos sou educador assistente do Mosaico. Conheci essa oficina fazendo as aulas quando era pequeno, fui aprendendo, criando postura, desenvolvendo o diálogo com as crianças. E o Mosaico é um trabalho de muita paciência; pra mim, é uma terapia. Ficar sentado por quatro horas e se desligar dos problemas é difícil, mas não é impossível.
Hoje, minha vontade é crescer, trabalhar aqui e poder ajudar os meninos que têm os mesmos problemas que os meus. Uma das coisas que me deixa mais feliz é passar para uma criança o conhecimento que tenho. É uma vitória ver uma criança fazendo o mosaico.

Observação
Em setembro de 2014 Lourival passou a trabalhar somente na produção de mosaicos, em sua própria casa e na CZ.