Marcos Lopes dos Santos

Marcos Lopes dos Santos, o Nenê, 31 anos, mediador de conflitos e fundador da ONG Projeto Sonhar
"Não existe nada melhor do que realizar sonhos."
 
A Casa do Zezinho representa pra mim o que a Princesa Isabel representa para os escravos: liberdade. Me deu asas, falou: "Voa". A CZ foi tudo na minha formação, minha educação, minha profissão, foi uma mãe. E a melhor mãe do mundo, porque é aquela que não dá as coisas para o filho, mas instrui como ter o que ela gostaria de dar.
A escola nunca me atraiu, só aprendi a ler com quase 10 anos. Repeti a segunda série duas vezes, brigava direto, meus pais eram chamados quase todos os dias. Eu ouvia das professoras: "Não sabe, não sabe, vai ter que aprender..." Quando tinha uns 8 anos comecei a tomar conta de carro na estrada de Itapecerica com outros moleques. Tinha um grupo de meninos que sempre batia na gente e levava o nosso dinheiro. Um dia, eu já com quase 12 anos, fomos jogar bola no campinho do bairro e encontramos esses meninos de uniforme, meião, kichute. Perguntei: "Onde vocês arrumaram isso?". Um deles falou: "Tem uma mulher lá em cima, de uma associação, que dá comida pra gente, ensina a fazer reciclagem e um monte de outras coisas". 
Fui lá num sábado, a Tia Dag estava sentada no portão. Pedi pra ela deixar eu jogar futebol. Ela perguntou em que posição eu jogava e falei: "Goleiro". Aí ela lançou um pirulito pra mim, eu peguei e ela disse que eu era um bom goleiro e que poderia participar do time. Essa foi a minha entrada no que viria a ser a Casa do Zezinho. 
Comecei a frequentar, mas às vezes não vinha porque o meu pai me batia quando bebia e eu ficava com vergonha de aparecer marcado. Quando tinha 12 para 13 anos, minha mãe se separou dele e foi a melhor coisa que aconteceu. Para o meu pai eu falava que ia ficar com a minha mãe, pra ela eu dizia que ia ficar com meu pai. E ficava na rua. Eu já não ia bem na escola e um dia assaltei a cantina. Fui expulso. Tinha 14 anos. A diretora chamou meu pai e disse que eu não tinha futuro, não ia passar dos 20 anos. Parei de ir na Casa do Zezinho. Fiquei com vergonha de dizer que tinha sido expulso da escola.
Passei a rever antigos amigos. A Ana Paula, que tinha sido minha melhor amiga, estava namorando um cara mais velho, que andava todo arrumado, de terno e gravata, barba feita. Ficamos amigos, eu ficava na casa dele jogando videogame, ele me dava roupa, celular, era o modelo de pai ideal. Um dia, ele disse que estava indo pro Rio de Janeiro e me convidou. Minha mãe não deixou ir. Depois de um tempo, pedi pra ele mandar dinheiro e fugi de casa. Nunca tinha ido pra praia, pirei. Até então não sabia, mas o cara era traficante e me levou com ele pra favela do Rato Molhado. Eu não usava cocaína, mas lá aprendi a misturar, embalar, a pegar em arma. O Rio de Janeiro foi uma "faculdade". Voltei seis meses depois e uns amigos estavam assaltando peruas clandestinas. Fiz meu primeiro assalto com uma arma de brinquedo. Não demorou para o segundo ser com arma de verdade. Não parei mais: roubava caminhão de gás, carga, carros. O dinheiro que eu ganhava gastava em uma noite com mulheres e bebida.
Chegou época de eleição e a polícia estava matando muito, então decidi parar. Tinha mais medo de ser preso do que de morrer. Parei de roubar, mas fiquei sem dinheiro. Nisso tinha chegado um cara do Grajaú querendo montar uma biqueira no Parque Santo Antônio. Falei que sabia como fazer tudo. Tinha 16 para 17 anos. Montamos uma boca de fumo e foi aí que comecei a usar cocaína, e muito. A gente ganhava R$ 20 mil por semana. Só que com o dinheiro, vieram os conflitos, queríamos tomar as outras bocas. Começou uma guerra e morreu muita gente. Eu tinha um monte de inimigos, não sabia mais quem estava comigo, até que o meu melhor amigo morreu. 
Aí saí daqui, estava com muita treta, fui morar no interior, fiquei seis meses na roça, onde uma tia morava. Ela queria arranjar um trabalho pra mim em colheita de algodão e eu doido pra arrumar uma turma pra roubar a cidade. Com o tempo, fui descobrindo que o meu vício era a adrenalina, preciso de adrenalina pra viver, não tinha vício na droga. Mas lá não fiz nada. Parece que ali me despertou o medo. Eu voltei e aconteceu o que me fez tirar a cabeça da água, respirar e pensar: "O que fiz da minha vida?". A minha melhor amiga, a Ana Paula, foi assassinada por um grupo rival ao nosso, dentro de um carro em que estava com outras pessoas. E a gente tinha acabado de selar um pacto. Muitos amigos nossos tinham morrido e todos estavam sendo enterrados no cemitério São Luiz. Ela me falou: "Promete que se eu morrer, você nunca vai me enterrar lá?". Eu pedi a mesma coisa pra ela. 
"O que vou fazer agora?", pensava. Eu estava sozinho e precisava de dinheiro para fazer o enterro dela. Lembrei da Tia Dag. Fui na Casa do Zezinho, expliquei o que tinha acontecido, que precisava manter a minha palavra. Ela me olhou com aquele jeitão, pegou o cheque e falou: "Qual o nome da pessoa que vai me pedir dinheiro pra fazer o seu enterro?". Mais uma vez, foi como se tivessem tirado a minha cabeça pra fora d'água. Comecei a ter noção de que não tinha mais ninguém comigo, que eu seria o próximo a morrer. Dos amigos todos daquela época, só sobreviveu um, o Júlio, que é meu parceiro. Ela falou para eu voltar para os meus sonhos, para eu voltar pra Casa do Zezinho. Eu dei tudo o que tinha para um amigo: arma, droga, carro.
Voltei em uma semana e fui organizar a biblioteca da Casa. Enontrei um livro chamado Capão Pecado [do Ferréz]. Foi como se eu tivesse descoberto o meu melhor amigo. Me identifiquei com a história. Sempre gostei de escrever e pensei: "Um dia vou escrever a minha". A Tia Dag pagou escola pra mim, voltei a estudar, arranjei um trabalho como auxiliar de limpeza em uma empresa. Ganhava R$ 210 e todo dia pensava em voltar para o crime. Mas encontrei dois amigos da CZ, o Jack e a Vanessa, que me disseram que iam começar a fazer faculdade. Naquela hora bateu uma inveja. Encontrar os dois foi uma das melhores coisas que me aconteceu porque a partir dali comecei a pensar: "Não vou ganhar R$ 300 a minha vida toda". 
Estudei, prestei vestibular e passei. O Gilson [Martins] conseguiu uma bolsa pra mim e pude fazer o curso de letras. Mas fui estudar na zona Leste porque tinha medo de ficar andando pelo bairro. Esse medo vai me acompanhar a vida inteira. Me formei e bati na porta no colégio onde fui expulso. Lá, fui professor substituto de português e de gramática durante três anos. 
Trabalhei como voluntário numa ONG, o Instituto Rukha, que tirava jovens do tráfico, depois consegui que fosse contratado. Uma vez, quando fazia visita a algumas famílias, me abordaram com uma pistola na favela e pensei: "É agora que eu morro". Me perguntaram o que estava fazendo ali. E para explicar que eu estava trabalhando? Fiquei na viela com a arma apontada na minha cara por uma hora e meia. Eu só pensava: "Nunca mais volto aqui".
Quando contei isso pra Tia Dag, ela falou que o cara estava pedindo ajuda. "Pedindo ajuda botando uma pistola na minha cara?". Ela mandou eu ir lá ajudar o cara. Voltei na quebrada e ele estava sentado comendo uma marmita. Fui chegando mais perto, meu coração a mil, eu com medo de o cara me pegar. Quando passei, ele levantou a cabeça e eu falei: "E aí? Tudo bem? Meu nome é Marcos, trabalho no Rukha". Comecei a trocar ideia com ele. A gente ficou amigo, descobri que ele era gerente da boca.
Um dia perguntei qual era o sonho dele. Ele falou que, se pudesse, cuidaria de cavalos, trabalharia num haras. Hoje ele está aqui na Casa do Zezinho. Isso aconteceu faz uns quatro anos. Depois dele, outras pessoas vieram me pedir para sair do tráfico, das drogas. Me tornei um mediador de conflitos em área de vulnerabilidade. Virei coordenador de um grupo de jovens e não parei mais. No fim de 2012, essa instituição para a qual eu trabalhava fechou. Eu já tinha resgatado 22 meninos. Não achei justo fechar as portas e ir embora. Daí eu e o Alex, amigo desde a época que comecei como voluntário, fundamos há um ano uma ONG chamada Projeto Sonhar, que trabalha esse resgate do tráfico. 
Em 2009, lancei meu livro, Zona de Guerra, que conta toda a minha história. No ano seguinte, fui convidado para palestrar na Alemanha e nos Estados Unidos. Sou um cara realizado profissionalmente, porque acabei me tornando referência no que faço. Quero ter condição de continuar fazendo o que faço. Não existe nada melhor do que realizar sonhos.