Maria Cleidiane Oliveira Souza

Maria Cleidiane Oliveira Souza, 28 anos, operadora de áudio da TV Cultura
"A Casa do Zezinho era o meu refúgio."

Eu nasci no Ceará, na cidade de Canindé, e aos 11 anos vim morar com os meus tios em São Paulo. Meu pai tinha sofrido um acidente e quebrado a clavícula, ficou sem trabalhar por muito tempo. As dívidas aumentaram e foi preciso entregar a casa. Por isso eles me mandaram para cá. 
O convívio era difícil, porque minhas primas, por serem paulistas, faziam brincadeiras maldosas comigo. Eu era muito orgulhosa, não chorava na frente deles. Meu tio me tratava diferente porque eu não era filha dele. Ele bebia, eu presenciava muitas brigas.
Uma vez, já adolescente, ouvi dele: "Se você tivesse crescido no Ceará, tenho certeza que estaria cheia de filhos, apanhando do marido". Eu falei: "Se eu tivesse crescido com os meus pais, com a cabeça que sempre tive, não estaria grávida e muito menos apanhando de um homem". Sempre pensei diferente. Via que as mulheres cearenses conseguiam, no máximo, ser professoras. A maioria era empregada doméstica, babá ou dona de casa que apanhava do marido alcoólatra. Eu pensava: "Não vou ser isso".
Então a Casa do Zezinho acabou sendo meu refúgio. Convenci a minha tia a me inscrever, na época eu tinha 16 anos. Era muito tímida. Foi aqui que aprendi a falar olhando no olho. Me diziam: "Se você olhar no olho da outra pessoa, vai se sentir mais segura". Fui perdendo a timidez e, literalmente, me tornei uma outra pessoa. Fiquei um ano na Sala Coração e depois fiz seis meses de curso de Estúdio de Som. 
Quando terminou, tive a oportunidade, através da Casa, de tentar uma vaga no Instituto Criar [de TV, Cinema e Novas Mídias], que tinha pedido à CZ para indicar dez alunos. Me inscrevi no curso de áudio e fui a única que passou. Mesmo sendo um departamento machista, porque é preciso carregar caixas de som, subir escada, passar cabos, tem que ter braço. Fiz um ano de curso e nos fins de semana fazia monitoração na CZ. Isso em 2005. Na sequência, me deram seis meses de estágio na TV Cultura. Não deixava homem nenhum me ajudar a carregar peso. Eu dizia: "Se você tocar aqui, vou arrumar briga. Eu estou aqui para fazer isso, então quem vai carregar essa caixa sou eu". 
O estágio era só de seis meses, mas vi que a turma seguinte só se formaria depois de outros seis meses, então a emissora ficaria sem estagiário nesse tempo. Falei: "Não tem sentido. Por que o estágio não é de um ano?" Convoquei todos os estagiários, marquei reunião com a representante do Criar, com o RH, fiz um rebuliço e consegui mais seis meses.
Depois, fui atrás de conseguir tirar meu DRT (Documento de Registro Técnico). Se eu não fosse contratada pela Cultura, precisaria dele para procurar emprego. O que me deu mais força foi uma frase que ouvi de um cidadão: "Desiste, porque você é mulher, você não tem formação, eles não vão te dar". E eu: "Vou tirar o DRT só para provar para você, para mais ninguém, que eu posso".
Fiquei dois meses indo no Criar, no Sindicato, na Cultura. Briga vai, briga vem, saí do estágio em julho de 2007 e em setembro consegui tirar o DRT. Agora, todo mundo sai do curso do Criar já com o registro. Em dezembro, a emissora me contratou como operadora de microfone. Passei por vários programas: Ensaio, Metrópoles, Roda Viva, todos os jornais. Pouco depois, fui promovida a operadora de áudio, que é quem cuida do áudio de um programa na mesa de som. Em duas semanas, estava fazendo um programa ao vivo, em que o convidado era o Tom Zé.
Logo que fui contratada, fui morar sozinha. Minha tia ficou admirada, e nossa relação melhorou muito. Hoje, meu tio fala que tem orgulho de mim para qualquer um que perguntar. Por meio de uma bolsa que ganhei da TV, fiz faculdade de Publicidade, na Uninove. Me formei em agosto de 2013. Agora, comecei um MBA em Marketing. 

Observação
Hoje Maria Cleidiane está casada, grávida, e o bebê vai nascer em abril de 2015.