Muller Silva Freitas

Muller Silva Freitas, 22 anos, assistente de comunicação da Casa do Zezinho
"Você entra na Casa do Zezinho e se sente muito bem, não tem explicação."

A princípio, não queria vir pra Casa do Zezinho. A primeira vez que ouvi falar daqui foi na escola, quando o pessoal foi divulgar. Na época, eu era muito fechado. Sempre fui muito nerd, de ficar no computador, então dizia: "Não quero ir não, prefiro ficar jogando GTA, mais legal". Só que deu uma, duas semanas, o pessoal começou a se inscrever. E como foi toda a galera que andava comigo, pensei: "Não vou ser o único que não vai entrar", e acabei vindo pra cá. Isso foi em 2008, tinha 17 anos, estava no último ano da escola.
 O engraçado é que como não tinha noção de nada, a primeira coisa que pensei foi: "Vou fazer web design", porque mexia com computador.  Só que o curso estava lotado. Então fui fazer foto e vídeo, o que acabou despertando meu lado artístico. Saí da toca. E foi por um acaso. No fim de 2008, quatro Zezinhos foram indicados para fazer um curso de fotografia em uma ONG chamada Imagem Mágica. Eu fui, e comecei a me apaixonar ainda mais por fotografia.
Em 2010, por causa de uma parceria entre a Casa do Zezinho e a Editora Trip, consegui uma vaga de assistente de arte na revista Trip. Eu adorei. É pauleira, redação! E eu já estava fazendo faculdade de design gráfico. Nessa época, fiquei quase um ano distante da Casa. Mas falava direto com o pessoal, vinha de vez em quando dar um "oi". Depois saí da Trip e parei a faculdade, foi uma época de dúvida. Foi então que anunciei aqui pro pessoal: "Gilson, estou parando tudo, estou pensando". Ele respondeu: "Enquanto você pensa, ajuda aqui". Voltei pra cá e comecei a trabalhar na Comunicação. E estou até hoje.
Atualmente, moro sozinho, em uma rua aqui do lado, em um cômodo. Minha mãe e meu pai se separaram recentemente, depois de um histórico de violência. Meus tios acham que tenho que morar com ela por ser o "homem da casa". Mas não acho. Posso cuidar dela de onde estiver, tendo a minha vida. Ela mora no Jardim Ângela, numa casa que uma patroa financiou pra ela.
Minha infância foi muito boa. Meus pais, nessa época, eram classe média, a gente morava em Moema. Mas meu pai foi perdendo tudo por causa de bebida. Eu também tive um irmão. Curiosamente, não era muito próximo dele, ele era muito diferente de mim. Até tentei me aproximar uma época, a gente vendeu milho verde juntos. Mas daí ele se envolveu com o tráfico e morreu em um tiroteio com a polícia. No começo, quando eu era bem mais jovem, ainda tentava trazer ele pra Casa do Zezinho, mas nunca me dei bem com ele, então... Apesar de tudo, sempre fui um cara tranquilo. Até hoje tem briga, tem conflito, o pessoal discute, eu to sempre na minha, não sou um cara de briga. Totalmente o oposto do que foi a minha família.
Minha mãe hoje é diarista, trabalha bastante. Acho que ela gosta, porque já tentei trazer ela pra fazer curso de gastronomia aqui, mas ela não vem. Continuo tentando. Minhas irmãs estão estudando, sempre trago elas para as festas ou para os cursos.
Estou aqui já há cinco anos, indo pro sexto agora. Um dos grandes eventos de que tenho orgulho foi a Copa Parque Santo Antônio, que juntou 20 times da comunidade, de pais de Zezinhos. Achei tão bonito a pré-organização, todos os times antigos fazendo reunião aqui. Nessa época, disseram que diminuiu a violência na comunidade, porque o pessoal estava focado no campeonato. Foi um feito que nos deixou muito orgulhosos, porque fizemos toda a cobertura de mídia: reportamos tudo, registramos em vídeo, agitamos as redes sociais. Engraçado é que me chamo Muller por causa do futebol. Meu pai, são-paulino, é quem me deu o nome de um ex-jogador do São Paulo.
Eu acho que se tivéssemos todo o dinheiro que precisamos, a Casa do Zezinho estaria muito maior, ajudando muito mais pessoas. Falta recurso para crescer. A Casa tem muitos parceiros, mas poderia ter mais. Estamos trabalhando para isso, focando nas mídias sociais, na reformulação do site.
O que a Casa do Zezinho mais me ensinou foi a acolher, independente da situação que a pessoa se encontre. Não importa que tipo de pessoa você seja, sempre vai ter um espaço aqui. A CZ tem uma coisa espiritual muito grande. Você chega e se sente muito bem, não tem explicação.  A minha história de transformação já é um exemplo gigante do que a Casa do Zezinho pode fazer por alguém. Por todos os conflitos que passei, familiares e emocionais, e ainda consegui estar onde estou hoje. Com certeza, eu poderia ter desistido em algum momento. Mas sempre tive apoio da Casa do Zezinho para falar: "Não, vamos em frente!".