Thiago Tadeu Guedes da Silva

Thiago Tadeu Guedes da Silva, 29 anos, mediador de jovens e educador ambiental da Casa do Zezinho
"A Casa do Zezinho foi praticamente uma universidade."

Posso dizer que sou um dos primeiros Zezinhos. Sou aluno da primeira turma da Tia Dag, de 1994. Ela começou com sete meninos, e acho que no segundo momento, quando abriu mais vagas, ficou com uns 50. Eu tinha uns 9, 10 anos. 
Minha mãe é pernambucana, meu pai é baiano e eu nasci em São Paulo. Eles se conheceram aqui, ambos nesse processo de "Vamos a São Paulo trabalhar!".  Minha família sempre teve um conflito muito grande em relação à questão financeira: meu pai queria economizar para comprar um terreno e fazer uma casa. Minha mãe era contra, falava que eles precisavam dar as coisas pra mim e meus irmãos. Então a gente cresceu no meio dessa briga.
Nesse cenário, com 10, 11 anos, fui atrás de alternativas para ajudar na renda. Comecei a trabalhar muito cedo, em um hortifruti do Parque Santo Antônio. Levava sacolas para as senhoras até as casas - ganhava R$1, R$2 por entrega - e, no fim do expediente, o gerente deixava fazer uma coleta de frutas e legumes. Minha mãe ficava feliz, contava pra todo mundo que eu já ajudava na casa.
Enquanto isso, a Casa do Zezinho foi aumentando a minha bagagem cultural. Olhando hoje, percebo que foi praticamente uma universidade. Me preparou para o trabalho, para a pressão da produção, para assumir compromissos. No momento que você está participando não se dá conta de todo esse processo, mas depois que vai para uma empresa e tem que bater metas, você se liga que fica mais fácil. Eu sou muito grato.
Quando tinha uns 15 anos, esse lance de começar a buscar algum dinheiro me levou até a oficina de mosaico.  Eu vi nessa oficina a chance de gerar algum recurso por meio da arte. Agora percebo que o mosaico foi uma grande terapia. O bairro vivia um momento muito agitado, existiam vários conflitos entre as bocas de fumo, muita gente morrendo. Então lá eu parava, montava um desenho, colocava peça por peça, com cuidado, com atenção no detalhe... Foi isso o que mais me centrou na época.
Com 18 anos, entrei como office boy em um escritório de engenharia e fiquei uns quatro anos. Aprendi a mexer com [o software] AutoCAD, fiz cursos de desenho técnico no SENAI e o chefe de lá, o engenheiro Carlos, começou a me incentivar a fazer engenharia. Pesquisei e vi que era um dos cursos mais caros das faculdades e desanimei. Como eu iria pagar R$ 1 mil, que hoje seria uns R$ 2 mil? Ainda mais que, logo depois, não conseguiram me manter na empresa e acabei voltando como voluntário do mosaico para a Casa do Zezinho.
Eu tinha certeza que queria fazer faculdade, mas não tinha condições, estava desempregado. Tinha feito vários testes vocacionais, e todos indicavam a área da saúde. Então falei pra Ana D'Água, coordenadora do mosaico e uma segunda mãe para mim: "Eu não quero ser médico, tenho certeza disso". Ela me aconselhou a pensar em meio ambiente, porque sabia que eu gostava de acampar, de mato, de viagem, e me falou pra ler sobre gestão ambiental. Comecei a pesquisar e vi que tinha várias coisas relacionadas com conservação de florestas. Decidi fazer gestão ambiental. 
Comecei a trabalhar como operador de telemarketing em um banco e soube que a empresa tinha aberto convênios para os funcionários terem 80% de desconto na mensalidade da faculdade. Comecei a mandar currículo de gestão ambiental, conheci um pessoal da SOS Mata Atlântica, e iniciei em um projeto voluntário. Esse meu lance de voluntariado surgiu aqui da Casa, sempre vi muitas pessoas doando tempo, carinho e dinheiro por acreditar na causa. 
Eu trabalhava no banco, fazia faculdade à noite e aos domingos ia para o voluntariado. Em um determinado momento, um amigo meu, o Marcos Lopes, conheceu o pessoal da ONG Iniciativa Verde. Ele falou que tinha um amigo estudando gestão ambiental e procurando emprego na área. Eles precisavam de alguém para trabalhar no administrativo como estagiário, mas o salário era de R$ 500, sem condução, alimentação, nada. Fiquei num conflito, porque eu já ganhava bem melhor, estava no último semestre da faculdade... Mas sabia que a experiência profissional contava. Decidi arriscar. 
Comecei no administrativo dessa ONG, já tinha trabalhado como office boy, então pra mim era fácil. Fazia tudo rápido para poder ficar conversando com os engenheiros, biólogos, oferecendo ajuda. Depois de seis meses, me formei na faculdade e fui efetivado como gestor ambiental.
Fui sentindo que queria estudar mais porque boa parte do pessoal tinha mestrado, doutorado. Muitas vezes eu sabia o que o cliente queria, mas me faltava argumento científico para convencê-lo. Decidi fazer o ENEM de novo. Como estudei a vida inteira em escola pública, eu tinha esse direito. Obtive uma nota bem acima da média, o que me deu uma bolsa na Universidade Paulista de 100%. Comecei a fazer ciências biológicas.
Nesse meio tempo, conheci a Helena, minha mulher, no aniversário de uma amiga da universidade. Ela é búlgara, mal falava português. Começamos a namorar e depois de um ano a gente resolveu casar, morar junto. Antes da Helena, tive uma filha com uma namorada da adolescência. A Ana Lívia tem 5 anos.
A Helena propôs que fôssemos para o Canadá, onde os pais dela moram. Eu topei, era uma oportunidade de aprender inglês. Depois de um ano, ela conseguiu um trabalho em Lima, no Peru, e nos mudamos. Mas eu não estava trabalhando, e essa situação não era confortável pra mim, porque sempre trabalhei desde os 12 anos. Meu dinheiro estava acabando, eu mandando currículos todos os dias. Então uma organização americana me chamou para ir pra Califórnia, trabalhar em um parque eólico. Fui para um estágio de três meses. Foi demais! Uma experiência superbacana. Eu trabalhava no deserto do Mojave, que fica entre Los Angeles e Las Vegas.
No fim do estágio, voltei para Lima e continuei mandando currículo, mas não acontecia nada. Então vim para o Brasil para terminar a faculdade e procurar emprego. Quando cheguei na Casa do Zezinho para rever o pessoal a Tia Dag me propôs trabalhar aqui como educador ambiental. Ela falou: "Você quer ou não quer?". Porque ela é assim. "Responde agora ou pode ir embora". Aceitei com o maior prazer. 
O projeto vai trabalhar as questões ambientais com jovens, adultos, educadores e as famílias. Ela falou que não quer ver as crianças na sala de aula, que é para eu me desdobrar pra fazer gestão ambiental na Casa. O meu novo desafio é planejar isso tudo.

Observação
Durante o ano de 2014 Thiago Tadeu assumiu também a função de mediador de jovens.