Valéria Silva Santana

Valéria Silva Santana, 19 anos, Zezinha veterana 
"Só fui conhecer música erudita na oficina de música."

Aqui soube o que queria para a minha vida. Se não fosse a Casa do Zezinho, não saberia que tocar violino poderia ser uma profissão. Nunca tive vontade de estudar um instrumento, a minha ideia era fazer engenharia civil. Meu pai sempre trabalhou em construção e eu gostava quando ele levava para casa as plantas dos prédios.

Em casa sempre se ouviu música popular. Eu só fui conhecer música erudita quando entrei no projeto Toca, Zezinho! aos 9 anos. O primeiro instrumento que me interessou foi a flauta transversal, mas logo criei gosto pelo violino. Isso faz dez anos. No início, meus pais não entendiam porque eu queria aquilo. Até hoje acho que eles não enxergam um futuro na música. Acham que não é uma profissão que dá dinheiro. Ainda mais que o sonho do meu pai era ver os filhos vencerem na vida, chegarem onde ele não conseguiu.

Quando meus irmãos, que hoje são casados, moravam com a gente, eu tinha que estudar no banheiro porque era o único lugar onde tinha mais silêncio. A casa é pequena, tinha muita bagunça. E o violino desafina, faz um som agudo, para eles não era nada legal.

Como minha família não gostava, não ia assistir as minhas apresentações. Eu ficava triste, via os pais dos outros alunos e eu lá sozinha. Mas sempre tinha alguém me dando força, como o Gian, que é o maestro daqui, ele me deu bastante apoio.

Quem me incentivou muito também foi a Tatiana, minha professora do Toca, Zezinho! na época. Fui estudando, me destacando, e ela perguntou se eu queria entrar na escola de música. Falei que sim. Ela me deu algumas aulas particulares, de graça, e me preparou para as provas do conservatório que estou hoje. Ela é a grande responsável por eu ter conseguido. Há cinco anos estudo na Escola Municipal de Música, que é ligada ao Theatro Municipal de São Paulo. Meu compositor preferido é o Tchaikovsky.

Consegui comprar meu violino com o dinheiro que a primeira-dama de Londres doou quando veio visitar a Casa do Zezinho. Ela gostou de me ver tocando. Uso todo o meu tempo para estudar. Terminei a escola e agora quero fazer faculdade. Mas já pensei em desistir algumas vezes. Tem muitas orquestras no Brasil que são compostas por panelinhas, nem sempre o melhor músico é o escolhido, então, fico pensando: "Será que vale a pena?".

Mas até agora está indo tudo bem. Meus pais ainda não me incentivam tanto, mas depois que assistiram uma apresentação minha, acompanhada do som de um piano, eles acharam lindo. Depois que veem o resultado, até que gostam bastante. Aos poucos, vou quebrando as barreiras.