Júlio de Sena

Júlio de Sena, 34 anos, digitador da equipe do Projeto Nota Fiscal Paulista
"O legal é a gente ver essa história. A gente ver a pessoa contando um sonho realizado."

Entrei em 1993 porque vivia na periferia. Minha mãe tinha me colocado na escola. Meus amigos e meus irmãos em vez de irem para a escola andavam pelo bairro, tomavam conta de carro em um estacionamento do Banco Bamerindus.
Um belo dia, passando em frente de uma casa, numa rua de barro, saímos pedindo. Um rapaz, encostado, no portão chamou nossa atenção, eu lembro: "O cara vai dar uma bronca em vocês."
Era o Zinho, que à tarde foi atrás da gente. A gente estava no campinho jogando bola. Ele falou conosco: a mulher lá quer falar com vocês, ela quer abrir tipo uma escola. A nossa vontade maior de ir, foi quando ele falou que ela ia dar comida. Até então a gente não sabia quem era essa pessoa. Ninguém nunca tinha feito isso, a gente assustou. Fomos com muito medo, não estávamos confiando, mas bem interessados na comida.
Eu lembro que essa rua era de barro. Hoje as casas estão mais arrumadinhas. "Podem entrar". Entramos em fila, um empurrando o outro, meio que com medo. Fui puxando a fila: meu irmão Alexandre, o Giraia, que já trabalhou na limpeza da Casa, Leo e Vandel (3 irmãos), Carlinhos, vulgo Caçapa, e o Luiz Ricardo, que é o Feijão (mais 2 irmãos). A maioria já virou pai de família.
Aí entramos meio assim. Hoje já mudou, mas lá no fundo da Casa ficavam Tia Dag e Corina. "Podem entrar, meninos".
E dali pra frente ela tratou a gente super bem, mostrou confiança, porque nós não sabíamos o que podia acontecer.
Começamos a ter aula. O dia da Tia Dag era 6ª feira, aula de cerâmica. A gente fazia vasos, cinzeiros. E esse sonho começou por aí.
Tínhamos reciclagem. Numa banheira antiga, cheia de água, picávamos papel e misturávamos corante. Fazíamos envelopes, papéis. 
Em outra aula, a gente pintava pano de prato. Eu desenhava bem caprichado. Coisas bem simples que a gente nem sabia o que era. Esse trabalho foi desenvolvido pela Tia Dag.
A partir daí fomos conhecendo mais gente, amigas, como a Corina que ficava com a gente dia de 2ª feira. Só não lembro o que ela ensinava, era um pouco de tudo, chamava mostrar o mundo para as crianças. A Thais, que a gente tem muita saudade. A Selma, a Ana D'Água, a Mabel. 
Passávamos o dia com elas. Tia Dag contava do seu sonho. Sonhava com esse projeto que hoje estamos vendo.
O legal é a gente ver essa história. A gente ver a pessoa contando um sonho realizado. 
Tiro por mim, tenho um sonho como a Tia Dag tinha, não que não sou capaz, mas o orgulho que tenho hoje é de ver o que ela conquistou e estar participando desse sonho, o valor da Casa, o sucesso que a Casa tem e eu faço parte desse sonho. É como se eu tivesse meu sonho realizado.
Vejo a dificuldade, o patrocínio. Ela falava tanto quando ela alcançou 100 crianças, que queria mais! Isso foi crescendo! A gente ficava grudado com a tia Dag e começou a abrir um leque, uma oportunidade de vida. 
Tive também fracassos na minha vida. Caia, levantava, altos e baixos, mas sempre tive o apoio da Casa. Eu estou aqui contando hoje essa história para você e dou graças a Deus de ter conhecido a Tia Dag, a Corina. 
Eu não tive amor de família. Uma época na minha vida, eu achava que tinha minha mãe. Mas eu ficava mais tempo aqui do que em casa. Eu dormia aqui. Minha mãe não se importava, é complicado falar disso agora. Era minha mãe, mas tinha uma barreira. Ela morreu em 2000. Sofria de asma, bronquite. Ela gostava de chamar as amigas para se reunirem no fim de semana e beber. Depois começou a beber mais. Tenho orgulho dela, mas aí é que está, tem uma parte da minha vida que acabei sabendo agora. Meu pai, eu não sei quem é. Meu irmão Alexandre, que entrou comigo na Casa, hoje está preso. É muito estranho. Não sei como falar isso. Ela tinha muita preocupação com esse meu irmão. Comigo não foi assim. Acho que porque ele era o caçula. Quando minha mãe morreu meu irmão entrou para o crime. É uma história muito louca. Não sei. Tia Dag, Corina falavam vai para tua casa, mas eu fui pegando um amor, um afeto. Elas foram me dando carinho, um negócio de mãe, de pegar no colo. Hoje eu me sinto um filho, um filho de sangue.
Hoje eu, Júlio, corro atrás dos meus objetivos. Tenho uma família, aprendi a amar cada um com respeito e carinho. Recebi isso, tenho dever de passar para os outros, para os meus filhos, o que aprendi aqui.
Tem um lado da minha vida que eu gostaria de apagar. Conto porque faz parte da minha vida.  Não escondo. Tinha medo, preocupação com meu irmão. Medo que acontecesse alguma coisa com ele, e eu, para defendê-lo, ficava junto na rodinha. A partir daí eu vivia armado, em pânico. Só me sentia seguro lá no Campo do Astro. Se desse para voltar e tirar isso da minha vida eu voltaria.