Agenor Mendes das Neves Júnior

Agenor Mendes das Neves Júnior, 29 anos, educador de artes
"Se todo bairro tivesse uma Casa do Zezinho, a violência seria bem menor."

Foi na Casa do Zezinho que comecei a perder meus medos e a não ligar para o que as pessoas falavam. Quando menino, sofri um pouco de preconceito por causa do meu sotaque, falava arrastado. Fui um menino supertímido, andava de boné, sempre me escondendo. Vim com a minha família da Paraíba para São Paulo, fugindo da seca. Pensava que a gente ia morar num prédio, num lugar bacana, só que o Parque Santo Antônio não era aquilo que imaginava. Mas fui me acostumando. 
Soube da Casa do Zezinho quando tinha 14 anos, assistindo a MTV. Numa entrevista com a banda O Rappa, que gostava muito, eles falavam de um lugar no bairro que tinha atividades superbacanas. Pensei: Caramba, não conheço?. Aí, um dia, andando de skate, passei na rua e vi uma casa colorida, a molecada entrando toda feliz. Me informei e descobri que tinham cursos gratuitos. Queria fazer informática, mas só tinha vaga para os cursos de costura e de cabeleireiro. 
Nessa época, eu fazia preparatório para a escola militar, meu sonho era ser soldado. Mas, com muito preconceito, acabei entrando no curso de costura e comecei a frequentar a CZ diariamente. Meu educador era o Gilson [Martins]. Ele dava atividades de teatro, mas eu ficava com muita vergonha de entrar. Só um ano depois, quando participei da atividade de clown, consegui me soltar e me expressar, nos personagens que criava eu me transformava em outra pessoa. Hoje, consigo falar pra 50, 100 pessoas, de cabeça erguida, sem vergonha alguma.
Eu fiz a maioria das oficinas que a Casa oferecia: panificação, mosaico, violino, pintura em tela, silk screen (estamparia de camiseta), informática, mas sempre me destaquei nas artes. Tive muito estímulo do Tio Saulo e da Tia Dag, que me incentivava a fazer uma faculdade. Participei de várias exposições com a CZ, no metrô, no Conjunto Nacional, e isso foi me aguçando cada vez mais, a ponto de eu ir desistindo da escola militar, que era meu sonho desde moleque.
Com 15 para 16 anos, aprendi a confeccionar tapetes artesanais e comecei a dar aula para as mães dos Zezinhos. Na sequência, fui convidado a dar aula para os Zezinhos e me tornei um educador com 17 anos. Na Casa usamos o nome "educador" porque ao mesmo tempo que ele ensina, aprende com a criança. Não é igual ao professor, que só coloca a verdade dele na lousa e acabou. Aqui existe uma troca constante que se estende para fora da Casa. Você vai visitar o jovem para ver se ele está numa condição bacana, quando pode faz alguma doação para as famílias que precisam. E isso vira uma rede, uma teia de aranha dentro da comunidade. Isso é respeito.
Montaram um ateliê e eu dava aulas para jovens quase da minha idade. Aos 18, terminei o colegial e passei em artes visuais na faculdade Maria Montessori. Consegui uma bolsa na Fundação Abrinq e fui custeado no segundo e no terceiro ano. Isso me ajudou muito, porque não tinha apoio financeiro dos meus pais. Para eles, na verdade, artes nem era profissão. Hoje, são superorgulhosos. Me destaquei muito na matéria de fotografia e, como estava ligado à Fundação Abrinq, eles podiam me indicar um mentor e me apresentaram ao fotógrafo Bob Wolfenson. Ele foi meu mentor por um ano e meio. Me levava a exposições, me indicava livros, cheguei a trabalhar no estúdio dele, em 2006. Fazia de tudo: limpava o jardim, cortava grama, atendia telefone. Fiquei lá até 2009, quando fui para um estúdio de outro fotógrafo, o Gustavo Zylbersztajn, na parte de contabilidade. Mas como ficava muito preso ao computador e sempre gostei de criar, saí de lá. Dois meses depois, a Tia Dag me convidou para dar atividades na CZ, no projeto Educação de Jovens para o Século XXI, onde passei a desenvolver atividades de artes com jovens entre 14 e 21 anos. Em 2011, fui chamado para dar aulas na oficina de fotografia. Hoje dou oficina de vídeo também, mas incluo pintura e desenho. E vejo que tem jovens que se espelham no que faço e isso é muito gratificante. As mães vêm me agradecer. Acredito no que faço e quero passar pra frente o que aprendi. Não adianta ter o conhecimento e não transferi-lo para outra pessoa. Acho isso muito importante.
Se todo bairro tivesse uma Casa do Zezinho, a violência seria bem menor. Os jovens vêm pra cá porque não têm lazer no bairro. Para jogar futebol precisa pular o muro da escola, andar de skate é proibido. Aqui aprendi a ser um cidadão. O mundo te oferece oportunidades boas e ruins. Onde morei sempre houve tráfico, mas a vontade de ser uma pessoa direita, de andar de cabeça erguida sempre bateu mais forte.