Ângela Souza de Jesus

Ângela Souza de Jesus, 28 anos, mediadora pedagógica
"A Casa do Zezinho me mostrou o outro lado da ponte."

Eu passei todas as fases da minha vida na Casa do Zezinho. Aqui fui criança, adolescente, mulher e mãe. São 17 anos de história. Em 2013, saí para dedicar meu tempo à minha filha, de 1 ano e quatro meses, e para abrir uma empresa de decoração de festas infantis e casamentos, junto com uma ex-Zezinha. Se tem uma coisa que a CZ desperta na gente é a determinação. Os Zezinhos saem querendo um papel na sociedade. Pensam em crescer, ter ambição. Não dá para ficar falando: "Ah, sou pobre, então vou ficar na favela".
Eu entrei na Casa com 11 anos. Minha mãe já tinha dado um basta no casamento com meu pai. Ela chegava a dormir com uma barra de ferro embaixo do colchão, porque ele já tinha tentado matar ela uma noite. Ele bebia muito, ficava fora de si, batia nela, no meu irmão. Foram anos de sofrimento, ela casou com ele quando tinha 19 anos, em Feira de Santana (BA), onde nasceram.
Ela conheceu meu padrasto, que considero meu pai. Num momento da vida, ele ficou desempregado e não tínhamos o que comer. No quintal de casa tinha um pé de jaca, a gente saía trocando as jacas por ovo, por qualquer coisa. Situação difícil.Até que uma vizinha falou pra minha mãe: "Por que você não põe seus filhos na Casa do Zezinho? Pelo menos lá tem comida". Isso acontece até hoje, muitos Zezinhos vêm primeiro pela comida. Eu era muito tímida, não queria ir. Minha mãe dizia: "Vai, porque se você e seu irmão comerem, já fico feliz". 
Na Casa do Zezinho a gente trabalhava muito com as cores, então fui deixando a minha casa mais colorida com o passar do tempo. Levava uns desenhos e colocava na parede: "Olha, mãe, fiz um quadro pra senhora". Trabalhávamos a auto-estima o tempo inteiro, os educadores diziam que a gente era capaz e isso despertava vontade e autonomia. 
Eu conheci teatro na CZ, conheci o que era um restaurante, o que é fazer uma faculdade, experimentei todo tipo de curso. A Casa do Zezinho me fez atravessar a ponte, me mostrou que eu podia sair do Parque Santo Antônio e conhecer o outro lado. Antes, só pensava em ganhar dinheiro para comprar comida pra minha família, não pensava em ser alguém.
Com 15 anos, me juntei a um outro Zezinho e falamos: "Tia Dag, queremos fazer uma biblioteca aqui". E ela: "Vai, faz!". Eu tomava conta dessa sala, os Zezinhos iam, liam os livros, eu anotava os nomes, me sentia importante. Até que a Tia Dag disse pra mim: "Você vai dar aula na Sala Matas". E eu: "O quê? Eu não sei dar aula". "Não se preocupe, você vai dar o que aprendeu aqui, você entende de Casa do Zezinho". 
Saía chorando das primeiras aulas, mas, com o tempo, dentro de mim foi despertando uma educadora que eu não conhecia. A Tia Dag acreditou em mim. Foi quando descobri: "Quero ser pedagoga na Casa do Zezinho". Nisso fiz 18 anos e a Tia Dag achava que eu tinha que sair e conhecer o mercado de trabalho. Fui trabalhar numa empresa de telemarketing e com os R$ 700 que ganhava por mês, consegui pagar a faculdade de pedagogia. Passei um ano e meio como operadora de telemarketing e a Tia Dag me chamou de volta, para ser educadora na Sala Violetas. Eu amo dar aula, sou apaixonada. Porque você está despertando no pequeno o que é o mundo. 
Eram 45 crianças no começo, depois passaram a ser 70! Lembro do primeiro dia, eles  chegando, via aqueles olhinhos me esperando. Pensava: "Meu Deus, que pedagogia vou usar?"Porque existe todo um planejamento, um percurso a percorrer, só que naquele momento é só você e os Zezinhos. Esse dia fiz uma roda de cantiga e uma brincadeira para que um conhecesse o outro. Sempre comecei a alfabetização pelo nome, a identidade é muito trabalhada na CZ, é muito importante o Zezinho se reconhecer.
O tempo foi passando e eu não conseguia entender porque algumas crianças não aprendiam, porque outras escreviam do lado contrário, porque não conseguiam segurar um pincel. Daí nasceu a vontade de fazer uma pós-graduação em psicopedagogia e fiz. Descobri que também podia ser uma psicopedagoga.
Passei seis anos na Sala Violetas. Chega um momento em que você precisa ultrapassar os limites, conhecer outras coisas. A Tia Dag me chamou para ser mediadora pedagógica. O trabalho do mediador é fazer o acompanhamento pedagógico com cada educador: didática, planejamento, rotina, contratação de funcionário, formação, triagem com voluntário. O mediador é um coordenador pedagógico, mas ganha esse nome porque também media conflitos dentro da Casa, faz de tudo. 
Fiquei na mediação por três anos, engravidei e casei. Saí do Parque Santo Antônio, hoje moro com meu marido e minha filha no Horto do Ipê, num apartamento alugado, mas pra mim é uma grande vitória. Meu foco agora é comprar uma casa e abrir uma creche para minha mãe. Ela deixou de ser faxineira e trabalha por conta própria, cuida de 20 crianças na casa dela. Você vê como a família toda vai indo pra frente?

Observação
No 2º semestre de 2014 Ângela voltou a trabalhar na Caa do Zezinho, como mediadora pedagógica.