Cláudio José Lima Júnior

Cláudio José Lima Júnior, 20 anos, analista social no Instituto Société Générale
"A Casa me ensinou a ter autonomia."

Sempre soube da existência da Casa do Zezinho, porque morava perto, mas não gostava daqui. Eu passava em frente e tinha a impressão que o pessoal me olhava feio, achava que iam me roubar, levar minha roupa, meu tênis. Coisa besta, sabe? Era meio neurótico.
Na época eu só estudava, voltava da escola e ficava em casa. Meu pai achava que eu precisava fazer alguma outra coisa. Ele ganhou um folheto com os cursos da Casa, foi na época que abriu o Projeto Educação para o Século XXI, em 2008. Ele me falou: "Olha, você vai fazer". E eu: "Não, não vou fazer". E ele: "Não estou perguntando se você quer, você vai fazer".
Entrei no curso de web design e o preconceito que eu tinha acabou nas três primeiras semanas, quando rolou a integração. Hoje analiso muito bem antes de ter uma opinião, de julgar. Isso é uma coisa que a Tia Dag ensina pra gente, que temos que pensar muito bem antes de julgar, porque é uma coisa séria.
Quando entrei, conheci muita gente, era uma delícia vir pra cá. Lembro de uma vez que fiz uma entrevista para emprego no Société Générale, justamente onde trabalho hoje. Passei na primeira e na segunda fase e fiz questão de não passar na terceira porque não queria sair da CZ. Aí depois aconteceu de eu entrar.
Naquela época eu não tinha noção do que queria fazer e ser, então qualquer coisa que ia aparecendo eu ia abraçando. Fiz web design, teatro, cinema... queria cada vez mais ampliar minha formação.
Quando era menor, queria ser jogador de futebol. Até cheguei a jogar no São Paulo, mesmo sendo corintiano. Mas é um mundo muito sujo, e decidi sair. Sempre gostei muito de estudar, fazia inglês, espanhol. Aí prestei vestibular assim que saí da escola, para jornalismo e administração. Passei nas duas. Mas como já estava trabalhando na área, fui para administração, para ter chance de progredir. 
Trabalho há quatro anos no Instituto Société Générale, indicado pela Casa do Zezinho. Entrei como Jovem aprendiz, fiquei dois anos como estagiário e agora sou analista. Gosto de trabalhar com o social, planejar, desenvolver ONGs. Acho que fiz a escolha certa. Estou até pensando em fazer economia quando acabar administração.
Isso foi o que a Casa mais me ensinou: a escolher o que quiser pra minha vida, ter autonomia. Sou um jovem de periferia, não tenho vergonha nenhuma, mas nunca me coloquei nessa posição. O que me impede de trabalhar em um banco francês e conversar de igual para igual? Nada. Se eu não tivesse tido a oportunidade de descobrir caminhos, talvez conhecesse uma só coisa na vida. Eu poderia ter sido entregador de pão.
Tenho uma família estruturada, diferente de tanta história que vejo por aqui. Nunca perdi ninguém por violência, apesar de morar no Jardim Ângela, que é um bairro perigoso. Antigamente morria gente toda semana. A minha história não é muito triste, eu sempre falo, mas não tenho vergonha de não ser.
Hoje continuo vindo na Casa, já ajudei a construir e a pintar muita coisa. O bacana é que aqui é uma rede, cada um ajuda como pode. A Casa precisa de dinheiro, mas também de manutenção - e custa caro.